Páginas

Ouça a música dos estados do Norte do Brasil: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins

3.3.10

Disco do Mês: Strange


O CD que escolhemos para comemorar nosso 7º mês no ar é Strange, da banda tocantinense Boddah Diciro, lançado em outubro de 2009 pelo projeto Compacto.Rec, da Fora do Eixo Discos. Aqui você ouve todas as faixas do CD, em nossa primeira caixinha cantante, e lê na íntegra o release original (em todos os sentidos que a palavra possa ter) escrito por Eduardo Mesquita e que hoje não consta mais da página do Compacto.Rec. O link para download continua valendo. Leia também o Diz Aí Especial que fizemos com a banda, publicado neste dia 3 no Som do Norte. Boa audição!

Um fato estranho...

Por: Eduardo Mesquita

A ligação disse que era algo misterioso. Haviam encontrado o corpo ao lado do aparelho de som, o Cd ainda rodava quando encontraram o corpo. Desligaram rapidamente e correram pra chamar ajuda.

Eu sou ajuda. Vim entender o que houve. O corpo jaz rígido, exangue, no rosto um misto de prazer e medo. O que houve aqui?

Ao lado do corpo a capa de um Cd. Provavelmente o Cd que tocava quando encontraram o morto. Linda capa, belos desenhos, edição especial. Interessante. Procuro o nome dos integrantes da banda, não encontro. Procuro fotos da banda, não encontro. Apenas a banda, apenas o grupo, apenas o coletivo. Não existem indivíduos, apenas a família. Curioso.

Quando começava a ler as letras das músicas, vejo ao lado do corpo algumas anotações. O papel parece que foi amassado num último ricto de dor, um espasmo que contraiu as mãos. Praticamente quebro os dedos do morto para retirar as folhas de papel. São anotações. Pela quantidade de anotações e pela quantidade de músicas no Cd, vejo a relação. Começo a ler...

Ganhei o Cd no festival, chego em casa e vou escutar. Ponho o Cd. Palhetadas, um timbre diferente. Duas notas vão surgindo, um mantra forma. A voz tem dor, ranço, angústia. Embriaguez que me balança? O corpo treme leve, norte, sul, leve. Indo e vindo. É meu coração que bate assim? É meu coração? Fecha os olhos, balança o corpo, norte, sul, leve. Fale pouco, poucas palavras. Tudo estranho. É meu coração?

Timbre diferente, bateria criativa, sangue nas cordas, peso, lento. Balança o corpo, norte, leve, sul. Voz de fundo, debaixo dos corpos uma voz vem surgindo. Tenha medo, tenha muito medo. Pausa, batida. É meu coração? Você está me culpando? Culpa, danação, a voz vinda do escuro. Não tenha pressa, meu amigo, eu tenho o dia todo para te fazer sofrer. Lento, arrastado. Eu sou o culpado.

Timbre, longo, misterioso. A voz poderia ser mais curta. É pequena, se estica. And Marla says “Slide...”. São as mentiras, e as batidas. É meu coração? Uma dança surge, uma batida, slap, será luz? Flores? Melhor não confiar. Não confie. A voz desafina? Ou afina diferente? Desafina. O fim desafina. Afina diferente.

As batidas dentro da cabeça. As batidas. É meu coração? Uma frase segue. A voz do escuro, mente. A serpente persegue a ninfa. Vem, pequenina, segura minha mão. É uma marcha militar, são tiros, rajadas de balas. É meu coração?

O baixo, uma levada até alegre. Não acredite!! Não acredite!! A voz surge doce, melíflua. Não acredite!! Querem te iludir, te atrair. Quer me ganhar aqui. Então tente. A voz rasga, foi-se a doçura. Violeta de Outono? Parece Violeta de Outono? A voz me quer pra si. A voz em português. Não acredito.

As batidas. Não é meu coração. Não pode ser meu coração. Veloz, subindo, maldade. Parou... era mentira. A voz ressurge gangrenando, corrompendo. Não poder voar, sair desse pesadelo estranho. Como seria a sanidade? Um lepidóptero com asas de sangue. O coração partido, é o coração dela? Tornou-se suave. Não acredite!! Não acredite!! Ela não pode voar. Nem eu.

Outra voz. Outro alguém como ele. A afinação é torta, é diferente. Não vai achar. Não vai se incomodar. Ouço a porta abrindo. Não. Não é a porta, é meu crânio. Meu lobo temporal se afasta. Eu sinto descolar. Os galhos sorriem. A porta abre. Não. É meu crânio. Meu cérebro jaz exposto. Fugir. Correr.

A batida de novo. Anuncia uma morte. A minha morte. A batida é a trilha sonora do meu pelotão de fuzilamento. Ela se acha feia. Olhos azuis. Verdes? Azuis. A dama dança num contrabaixo enganador. O fogo dos olhos é minha consciência perdida. A batida, assassinos marcham no pátio. E eu digo à Madame Saatan que horror e ódio nos alimentam. Slap na cara. Ela me olha de frente, me vê por dentro. Me vê lindo. Eu sou feio. Sou um idiota. A marcha segue. Alguém grita no telhado, e eu vejo duas flamas me fitando. Seus olhos cores têm fogo. Ela seduz, atrai, me deixa nervoso. Atirem logo! Atirem!!!

Me ajuda. Eu preciso de ajuda. A experiência é devastadora. A chave vem do infinito. Alguém me mostre o outro lado. A voz escorre. Alonga, eterniza. Meu crânio aberto. A voz é suave, me quer bem. Não acredite!!! Fuja, continue correndo. Eles estão vindo. O corpo balança, norte leve sul, leve norte sul, teve sorte sul, neve morte sul. Morte.

A batida. É meu coração? São as asas do anjo. Sekk or seek? Hyde or hide? Nevermind. Run! Não vou te deixar cair, vou te guardar no meu peito, dentro das minhas asas, vou te devorar viva. A voz grita. Acredita agora. ficou suave, mas não acredite, eles querem te atrair. A trilha sonora do seu extermínio. Não se deixe enganar, eles não te querem bem. Mas está tão suave... como o cheiro amargo de amêndoas que deixa o cianureto. Não acredite, te peço.

A viagem. O som do encanto, sussurrado pela ninfa, ela sorri, envolve, seduz, encanta. Não acredite!! A batida, dentro do meu crânio, não é meu coração. Não é. Quer voltar agora? a ninfa sorri, seu sopro suaviza, mas a batida retorna, tenta acordar, tenta sair, não acredite!!! A batida, a maldita batida, as palhetadas. Então dance, maldito! Sua última dança, sua última viagem. Suave... até o fim.

Tudo muito curioso. As anotações geram mais dúvidas que certezas. Melhor ouvir o Cd para entender tudo isso. Boddah Diciro é o nome da banda, o Cd chama “Strange”, mas não há nada de estranho nele. Aperto o play. Será que existe alguma relação entre as músicas e a morte? Entre as músicas e a angústia que ele traz na expressão? Será que existe alguma relação entre a música, a angústia e a morte? Acho que não.

O Cd parece inofensivo. Vou ouvir, acredito que ele é inofensivo.

NÃO ACREDITE!!! NÃO ACREDITE!!!    

E do seu canto Boddah continua seu desenho infantil.

Sorri satisfeito. 


Boddah Diciro é:

Samia - Guitarra e Voz
Beto - Guitarra e Voz
Dídia - Bateria
Dan - Baixo 

STRANGE - Ficha técnica:
All songs written by Boddah Diciro
Produced by Gustavo Vazquez, Luís Maldonalle and Boddah Diciro
Recorded, mixed and mastered by Gustavo Vazquez at Rocklab (Goiânia, Brazil), between september and december (2008)
Additional guitars stuff by Luís Maldonalle
Synthesizers by Gustavo Vazquez
Drawings by Bicicleta sem Freio (Goiânia, Brazil)

Todas as músicas escritas por Boddah Diciro
Produzido por Gustavo Vazquez, Luís Maldonalle e Boddah Diciro
Gravado, mixado e masterizado por Gustavo Vazquez no estúdio Rocklab (Goiânia, Brasil), entre setembro e dezembro (2008)
Guitarras adicionais por Luís Maldonalle
Sintetizadores por Gustavo Vazquez
Ilustração por Bicicleta sem Freio (Goiânia, Brasil)


Gostou da nossa caixinha cantante?
Então copie o código e leve-a para cantar em seu site ou blog!


Nenhum comentário:

Postar um comentário