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6.8.11

Disco do Mês: Uirapuru Chama Verequete


Ao pensar qual poderia ser nosso Disco do Mês de agosto, eu tinha em mente que teria que ser algo muito especial, afinal comemoramos no dia 3 o segundo aniversário do blog Som do Norte. A escolha naturalmente se encaminhou para o CD Uirapuru Chama Verequete, lançado pela Ná Music no mês passado. Desta forma, primeiramente saldamos uma dívida com nossos leitores, pois até agora nunca havíamos tido um CD de carimbó como Disco do Mês. Mas, principalmente, homenageamos o mestre Verequete, o maior nome do carimbó, no mês em que ele completaria 95 anos (foi em 26 de agosto de 1916 que Verequete, batizado Augusto Gomes Rodrigues, nasceu em Bragança, PA). "Muito especial" talvez seja pouco para definir este CD, que mostra como a partir de uma dificuldade (quase impossibilidade) é possível construir algo muito belo. Comecemos do começo.

A ligação do Uirapuru com Verequete vem de muito tempo, mais precisamente da década de 1970, quando o grupo foi criado pelo mestre em Icoaraci (distrito de Belém) para acompanhá-lo. Foram inúmeros shows e vários discos (o primeiro, O Legítimo Carimbó, cuja capa vemos abaixo, saiu em 1974 pela gravadora CID. Depois houve mais dois com este nome; o Vol. 2 é de 1975 e o Vol. 3 de 1976). Entre os músicos do grupo, estava Curica, que se tornou o principal arranjador dos discos de Verequete, figurando hoje entre os grandes nomes do carimbó, ao lado de Pinduca e de Mestre Lucindo, além do próprio Verequete, logicamente. (Mais recentemente, Curica integrou o grupo Mestres da Guitarrada, de 2003 a 2008, ano em que fundou o Guitarradas do Pará).

Em 2008, como o Uirapuru pretendia gravar novo disco, o convite a Verequete para participar do trabalho era mais do que natural. Sendo assim, num dia de maio daquele ano o mestre compareceu aos estúdios da Ná Music (Belém), gravando vozes-guia, para a partir delas se elaborar as bases do CD.

- A ideia do grupo Uirapuru era gravar um álbum com o Verequete cantando. Mas, depois do primeiro ensaio, onde ele gravou o guia de cinco músicas que iriam compor o CD, Verequete ficou doente e não conseguiu mais retornar ao estúdio. Então, o projeto do álbum ficou de lado - esclareceu Ná Figueredo, proprietário do selo Ná Music, ao Amazônia Jornal, em matéria publicada em 4 de julho deste ano.

As cinco músicas eram "Eu Nasci em Bragança", "O Ralador", "O Carimbó do Açaí", "Homenagem à Virgem" e "Nós Somos o Uirapuru" - as duas últimas totalmente inéditas. O filho de Verequete, Augusto Rodrigues, informou ao Amazônia que o pai nunca as cantara nem em show.

A morte de Verequete, em 3 de novembro de 2009, comoveu o Pará. Também levou o grupo Uirapuru e Ná Figueredo a pensar sobre o que fazer com o material, que se constitui no último registro feito pelo mestre do carimbó em vida. A opção adotada foi, sem dúvida, a mais acertada: fazer de fato o disco pretendido, acrescendo às cinco canções existente outras dez, sendo cinco de Manezinho do Sax e cinco de Cancan.

Primeiramente, houve um primoroso trabalho de edição, executado por Tiago Albuquerque, para integrar a voz do mestre com o som gravado posteriormente pelo grupo (o resultado é surpreendente, principalmente no refrão estilo canto-e-respostade "O Ralador", voz principal e coro parecem ter sido gravados juntos). E, não menos emocionante que isso, o Uirapuru transformou o disco numa celebração a Verequete. Ele é homenageado em duas músicas de Cancan: "Ele é Homem Simples" (Ele é homem simples, não anda de paletó, por isso ele é raiz do famoso carimbó...) e "Homenagem ao Mestre" (Verequete, seus amigos nunca vão te deixar só, tu sabe, tu é lenda pura da vida do carimbó. Ó Verequete, vamos te homenagear, tu sabe que é o rei do carimbó do Pará...). Já Manezinho do Sax o invoca em "O Carimbó do Grupo" para, como se fosse num show, fazer a tradicional apresentação dos músicos (O mestre Verequete está botando pra quebrar, quando ele canta o carimbó todo mundo vem dançar. O mestre Verequete agora vai apresentar os componentes do grupo que vieram pra tocar). Lindas homenagens, simples, informais e sem nenhum tom lamentoso (como vêem, o grupo sempre se refere a Verequete como estando vivo - mais que isso, como se estivesse ali, sentado ao lado deles, no estúdio. E, de certa forma, estava). O restante do disco segue abordando o universo temático do mestre: o Ver-o-Peso, as rodas de carimbó, o Círio de Nazaré, o tucupi e o tacacá, as belezas de Belém, a farinha d'água...


O CD foi lançado pelo grupo Uirapuru em show no SESC Boulevard (Belém) em 14 de julho. O evento também teve a exibição do documentário Chama Verequete, de Luiz Arnaldo Campos e Rogério Parreira.


Grupo Uirapuru, no show de lançamento do CD - 14.7.11

Uirapuru Chama Verequete está à venda em Belém nas lojas Ná Figueredo. Na internet, você encontra o disco no site OneRPM. É possível comprar o CD inteiro, ou faixa a faixa - duas delas, "Homenagem à Virgem" e "Alô Belém", estão disponíveis para download gratuito.




1 - Homenagem à Virgem

2 - Eu Vou Só

3 - Ele é Homem Simples

4 - Eu Nasci em Bragança

5 - Alô Belém

6 - Sustenta Minha Moçada

7 - O Carimbó do Açaí

8 - Retumbão

9 - Lembrando Minha Vó

10 - Nós Somos o Uirapuru

11 - O Carimbó do Ver-o-Peso

12 - Homenagem ao Mestre

13 - O Ralador

14 - O Carimbó do Grupo

15 - Teu Nome é Jenipaúba


FICHA TÉCNICA

Curimbós: Augusto Filho
Maracás: Cancan
Banjo: Hélio de Castro
Sax: Manezinho do Sax
Voz: Mestre Verequete e Cancan
Vocais: Cancan e Augusto Filho
Gravações: Jacob Franco e Tiago Albuquerque
Mixagem e masterização: Tiago Albuquerque
Projeto gráfico: Ná Figueredo

A voz do Mestre Verequete foi gravada como guia em um ensaio do Uirapuru no Estúdio da Na Music, o trabalho de edição para que o último canto do Mestre do carimbó em estúdio pudesse ser apreciado foi executado por Tiago Albuquerque.

As músicas 01, 04, 07, 10 e 13 são de autoria do Mestre Verequete
músicas 02, 05, 08, 11, 14 são de autoria de Manezinho do Sax
03, 06, 09, 12, 15 são de autoria de Cancan