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Ouça a música dos estados do Norte do Brasil: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins

28.3.15

Acervo Acre: Inundação (2006)




No dia 14 de março, publiquei no Som do Norte um post relatando lançamentos recentes de três estados da Amazônia - Pará, Amapá e Acre. O do Acre não chega propriamente a ser um lançamento, se formos considerar que o disco de onde saiu a música destacada - "Plantação de Bacuri" - saiu em 2006. Porém, é a primeira vez neste 9 anos que a cantora Kelen Mendes disponibiliza o EP Inundação na íntegra para audição nas redes sociais.

Aproveitando o ensejo, convidei Kelen a escrever um depoimento, uma espécie de balanço desses 9 anos de "vida" do disco, acompanhado de uma reflexão sobre o que a levou a gravar não um apanhado de inéditas, como geralmente acontece nas estreias fonográficas, mas sim um mergulho em sonoridades acreanas anteriores. Com a palavra, Kelen Mendes.


(Fabio Gomes)


***



Acho estranho o raciocínio da pressa no desuso ou em “tirar fora”, esquecer, descartar. Quando era criança, ainda haviam, relativamente poucas lojas, em Rio Branco; minha mãe mandava fazer nossas roupas na costureira; escolher o tecido e o modelo da roupa era bastante divertido e como os tecidos duram mais que as malhas, as roupas tinham vida longa; também porque eram lavadas à mão, uma vez que eletrodomésticos eram menos acessíveis.

Faço essa analogia para falar sobre porque gravei músicas, de compositores locais, que não eram inéditas. Nasci na década de 1970 e essa geração ouvia rádio; moro numa cidade pequena mas que valorizou seus músicos um dia. Onde os compositores e intérpretes tocavam nas rádios locais, emplacavam hits e como criança, projetava um dia também cantar nas rádios. Eu cantava pela primeira vez com banda (Banda Ponto G, 1997) e nós projetamos a gravação de um CD. Mas a essa altura dos fatos, os compositores da cidade eram quase invisíveis; conhecidos apenas por um pequeno grupo, a maioria artistas também. Não gostava de pensar que crianças e adolescentes não teriam a mesma oportunidade que tive; de conhecer e saber cantar essas canções. Das seis que gravei, "Conselho de Amigo" e "Ao Chico" foram as mais conhecidas pelas ondas de rádio mas nem todas tocaram no rádio; as gerações de músicos vindouros, incluindo a que faço parte, encarregou-se de tocar ao vivo as demais canções e de tornar algumas quase populares, como "Plantação de Bacurí" que foi muito cantada pelo Pia Villa e "Dom Quixote" pelo Clenilson Batista (com Kelen na foto abaixo), no bar Casarão.


Na verdade, como intérprete, pretendia gravar mais tarde; talvez quando sentisse preparada; mesmo que esse dia nunca chegasse (risos); eu não tinha pressa para gravar; no entanto, após quatro anos de banda, decidimos gravar. Mais ou menos em 2000 e na época eu ainda não assumia compor, embora já tivesse feito algumas coisas pra própria banda Ponto G. A antecipação de gravar sozinha ocorreu porque a banda acabou; nós tínhamos aprovado um projeto de gravação e então eu tive que pedir autorização do tecladista da banda, que assinou o nosso projeto (lei de incentivo estadual), para gravar sozinha; era a forma de não perder o recurso tão difícil de conseguir e como eu mesma havia ralado pra fazer o projeto, decidi gravar sem a banda. Selecionei as músicas e chamei Chico Chagas, a quem conhecia e confiava no trabalho, para arregimentar os músicos, fazer os arranjos, fazer a produção musical. Acho que encontrar o Chico, que já morava há bastante tempo no Rio de Janeiro, passar pra ele mais ou menos o que eu queria de resultado sonoro e alcançar o resultado que conversamos sobre, foi ótimo, já valeu a viagem, o encontro e as dificuldades do caminho.



Show de lançamento, em 2006


Demorei anos pra fechar o CD e concluir o projeto. E assisti, desde a linda festa de lançamento (numa casa de cultura que tive entre 2006 e 2008, no meu bairro, a Maloca da Nega), onde o CD reuniu personalidades locais, até ele (o CD) tocar na rádio pública Aldeia FM (a única que toca parte da nossa produção) e em algumas festas muito específicas; agora, no ano de 2015, já distribui pra várias pessoas, vendi pouco e só agora postei no Soundcloud. Várias vezes fiquei de mal com ele (CD Inundação) mas sempre nos reconciliamos (risos). 

Hoje sou compositora mas o amor que tenho por essas canções, por vários dos nossos compositores...as belas lembranças das músicas que tocavam nas rádios locais quando criança, de certa forma, isso tudo está no Inundação. A possibilidade de ouvir, olhar e ver a Kelen intérprete e compositora; quem ela é, de onde vem; isso tudo é marcado por essas gravações; eu costumo dizer que a parte boa da colonização cultural norte-americana sobre o Brasil, na década de 70, é a black music. Não gosto da “gospelização” da nossa cultura mas sou fruto também dessa black music que relemos e tornamos amazônica; só um acreano, fronteiriço, apaixonado por sua história é capaz de cantar um soul nativo amazônico ("Inundação", de Narciso Augusto). O Narciso eu amo de paixão, sou fã mesmo; quando eu comecei a conhecer os compositores que moravam em Rio Branco, o Narciso e o Damião Hamilton ("Bambú") foram os primeiros que conheci. O Damião até antes; depois o Sérgio e o Edson ("Dom Quixote"). Entre o rock e o funk eu herdei o funk com orgulho (risos) e em "Conselho de Amigo", fizemos uma mistura. A música "Conselho de Amigo", originalmente um samba, gênero nacional, pelo qual também sou apaixonada, foi gravada por Da Costa mais ou menos em 1973, o ano que nasci.


Como nativa, busco não perder as pistas para chegar mais perto das nossas identidades; as mais tradicionais; procuro mostrar isso compondo. “Inundação” é um ponto; não exatamente o “ponto g” mas o ponto que marca sobretudo a chegada do rio Acre, que veio até o meu trabalho autoral “PorAquiry”, sendo Aquiry o provável nome original do rio dos jacarés; e sonoramente, continuo acalentando o sonho de ver o CD Inundação chegando aos jovens ouvidos, principalmente dos jovens acrianos (cuja escrita trocou o ‘e’ pelo ‘i’) e marcando um pouco as novas gerações, com as canções que tanto me marcaram. Desejo que nossa produção musical desague novamente nas rádios; on line, ao vivo, em cores de sons. Que as novas construções identitárias e emotivas não tenham tanta pressa em passar; que o consumo seja mais lento e que como os tecidos de viscose, possam durar bem mais que as malhas. A tecnologia porém mais acessível e tornando a possibilidade de diálogo mais ampla, possa nos levar aos doces rios de quem busca algo menos homogêneo. Inundação de boa música pra nós! E que venham shows, viagens, premiações...e muito amor nos corações!


Kelen Mendes

12.1.15

Disco do Mês: Batida Brasileira 2





A cantora Euterpe inicia 2015 lançando o CD Batida Brasileira 2, o segundo de uma trilogia com a qual a artista promove a valorização da música popular brasileira, privilegiando o trabalho dos compositores da região Norte do Brasil. O novo CD é o nosso 33º Disco do Mês e o 7º de Roraima; o CD anterior da intérprete, Batida Brasileira, foi destaque em abril de 2010. 

Neste segundo disco, Euterpe se reafirma excelente intérprete, com timbre agradabilíssimo e afinação perfeita. Como compositora, expande as fronteiras de seu som, ao dialogar com o universo pop em músicas como “Alguém” e “Loura Linda” (ambas parcerias com Eliakin Rufino; a última remete ao Jorge Ben dos anos 1970, tanto por seu ritmo contagiante quanto pela letra em que uma mesma expressão inicia uma sequência de versos – o seu cabelo é ouro/ o seu cabelo é belo/ o seu cabelo é louro/ é lindo esse amarelo”). Outra composição com ritmo contagiante é o samba “Coração Campeão” (também parceria com Eliakin). Em “Fico com o presente”, a melodia pouco extensa exprime à perfeição a valorização do tempo presente, apontado como superior ao passado e ao futuro na letra de Eliakin Rufino. Já em “Viola goiana”, Euterpe renova a parceria com o poeta Gilberto Mendonça Telles, iniciada no CD anterior.

Euterpe também estreia no álbum como letrista, sendo sua a versão para o francês do poema de Odara Rufino “Oiseau noir”, dedicado à pintora mexicana Frida Kahlo, que sempre se manteve otimista apesar dos inúmeros percalços pelos quais passou. Outra homenageada, em “Casa de Cesária”, é a cantora Cesária Évora, de Cabo Verde; na letra, incorporando vocábulos do dialeto crioulo cabo-verdiano como “cretcheu” (pessoa muito querida), Eliakin Rufino descreve a sensação de visitar a casa onde a artista viveu em Mindelo, em março de 2012; Cesária falecera três meses antes.

Eliakin Rufino em Mindelo,
em frente à casa de Cesária Évora


A sintonia com o mundo é um traço marcante do disco, que consegue ser uma expressão regional sem jamais cair em clichês regionalistas. Mesmo na faixa de abertura, “Sertão das águas” (Milton Nascimento – Ronaldo Bastos), não há apenas bucolismo nas referências a igarapés, matas e seringais; a letra roga que não venha o fogo queimar/ nem trator correr arrastar/ pra que a vida queira pulsar e correr. Milton lançou “Sertão das águas” em seu LP Txai (1990), parcialmente gravado no Acre e em Rondônia. Robertinho Silva, que faz participação especial nesta faixa, também estava presente na gravação original.

Outro traço marcante do CD é o otimismo, seja no samba-exaltação “O Rio é mar”, homenagem ao Rio de Janeiro, seja ao falar de amor em “Alguém” ou na já citada “Coração Campeão” (toda as três de Euterpe e Eliakin Rufino) – nesta, ao amor se soma a liberdade individual (“deixei você com a corda solta/.../deixei você independente”), tema constante na obra poética e musical de Eliakin e que igualmente comparece em “Vagabundo”, poema de Álvares de Azevedo publicado em 1853 e musicado pelo compositor amapaense Naldo Maranhão; nesta faixa, Euterpe realiza uma das melhores interpretações do CD, com destaque para o fraseado quase falado da última estrofe do poema.

Natural de Boa Vista, Roraima, Euterpe começou a cantar aos 11 anos no Coral Canarinhos da Amazônia, participando de três CDs do grupo. De 2003 a 2006, morou em Manaus, sendo destaque na cena musical da cidade. De volta a Boa Vista, venceu diversos festivais e recebeu o Prêmio Produção do Projeto Pixinguinha, que resultou na gravação do primeiro Batida Brasileira (2009). Em 2011, fez turnê de lançamento do disco em todos os estados da Amazônia Legal e no Rio de Janeiro através do circuito SESC Amazônia das Artes. Regularmente apresenta-se em shows e festivais, já tendo dividido o palco com Leila Pinheiro, Eliakin Rufino e Elisa Maia, entre outros.


Batida Brasileira 2 foi gravado nos dias 14 e 15 de outubro de 2013, no estúdio Umuarama, no Rio de Janeiro, com direção musical de Ney Conceição, produção executiva de Jeferson Ghol, e tendo Ricardo Calafate como engenheiro de som. A direção artística coube ao poeta Eliakin Rufino. A ilustração da capa do disco é de Odara Rufino. Três músicos estão presentes em todas as faixas: o baixista Ney Conceição, também autor dos arranjos; o tecladista Luiz Otávio Paixão e o baterista  Lúcio Vieira. Também participaram das gravações: José Arimatéa (trompete), Marlon Caldeira (trombone), Mestrinho (acordeon), Robertinho Silva (percussão) e Victor Lopez (guitarra portuguesa). O disco se destina ao mercado nacional e internacional e tem o patrocínio da empresa Carmen Steffens, viabilizado através da Lei de Incentivo à Cultura do Estado de Roraima.